Cristiane Méri Pereira Bueno[1]
Yanina Micaela Sammarco[2]
O presente artigo apresenta narrativas de um grupo de professoras participantes de uma pesquisa acadêmica desenvolvida em nível de mestrado, constituindo um recorte de um dos capítulos do estudo. O trabalho justifica-se pela relevância das relações estabelecidas entre memória, território, experiências significativas e práticas de educação socioambiental, tendo como referência a paisagem e o Rio Miringuava. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório, descritivo e narrativo, com o objetivo de analisar as percepções dessas atrizes sociais acerca das relações entre práticas socioambientais e o envolvimento com o Rio Miringuava, compreendido como rio educador na paisagem socioambiental. Como estratégia metodológica, utilizou-se a triangulação de dados, contemplando entrevistas semiestruturadas, análise documental e observações. As narrativas evidenciam o rio educador como elemento constitutivo da paisagem e da memória coletiva, destacando seu potencial pedagógico para o fortalecimento de práticas de educação socioambiental e educação ambiental, contextualizadas e comprometidas com a valorização do espaço vivido.
INTRODUÇÃO
No âmbito deste estudo, as narrativas das participantes constituem-se como elementos centrais para compreender como o Rio Miringuava é percebido e significado como rio educador, mobilizando histórias, relatos, memórias e sensibilidades construídas ao longo das experiências vividas. A partir dessas narrativas, a pesquisa teve como objetivo analisar as percepções das professoras acerca das relações estabelecidas entre o rio, a paisagem e as práticas de educação socioambiental. Nesse sentido, buscou-se evidenciar os sentidos atribuídos ao Rio Miringuava como espaço formativo, pedagógico e de pertencimento local.
O Rio Miringuava destaca-se como o principal curso d’água do município de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Com a sua nascente na Serra do Mar e a sua foz no Rio Iguaçu. O seu trajeto percorre vinte e cinco quilômetros entre extensas áreas rurais, onde se articulam práticas tradicionais de agricultura familiar e diferentes formas de ocupação e uso do solo. Ao mesmo tempo, o rio é atravessado por intervenções humanas significativas, como a construção da Barragem Miringuava, onde se reconfiguram a paisagem e intensificam a complexidade das dinâmicas ambientais, sociais e culturais do território.
A construção da Barragem do Miringuava representa uma obra de infraestrutura hidráulica que altera o curso do rio, e repercute diretamente na configuração da paisagem. Para além dos impactos ambientais, tais intervenções também geram efeitos sociais e culturais, ao transformar modos de vida e vínculos simbólicos construídos historicamente. Assim, o rio passa a expressar a complexidade das dinâmicas socioambientais, e amplia seu potencial como espaço de aprendizagem, narrativas e reflexão crítica.
Conforme aponta Bolívar (2002), as narrativas das pessoas e as narrativas do pesquisador fundem-se de modo produtivo na construção do conhecimento. Para tanto, impulsionam os critérios tradicionais de legitimidade científica, como validade, generalização e confiabilidade. Essa perspectiva evidencia uma crise nos modelos clássicos de pesquisa, exacerbada pela investigação biográfico-narrativa, ao introduzir uma “lacuna” entre a experiência vivida e sua representação no discurso científico. Nesse sentido, as narrativas constituem-se como importantes dispositivos de produção de sentidos, pois permitem acessar experiências, memórias e significados. A pesquisa insere-se na abordagem qualitativa, a qual, segundo Minayo (2001), busca compreender os significados, valores, crenças e práticas presentes nas relações sociais, considerando os sujeitos em seus contextos históricos, culturais e territoriais.
O artigo oferece contribuições teóricas ao campo da Educação Socioambiental ao propor a compreensão do rio como educador. O estudo amplia a compreensão da educação ambiental para além de abordagens prescritivas. Reconhece nas narrativas, a experiência vivida e os vínculos afetivos como dimensões constitutivas dos processos educativos. A pesquisa também contribui para o debate metodológico ao legitimar a abordagem biográfico-narrativa como estratégia de produção de conhecimento. A construção analítica resultou na articulação entre as narrativas das professoras e a interpretação da pesquisadora, permitindo compreender a paisagem, e a percepção do rio educador nas práticas de educação socioambiental.
REFERENCIAL TEÓRICO
O referencial teórico desse artigo fundamenta-se na Epistemologia do Sul, que problematiza a hegemonia do conhecimento científico moderno e reconhece a legitimidade dos diversos saberes do Sul global. Autores como, Krenak (2023) e Nêgo Bispo (2023) contribuem para compreender a relação ancestral, no qual rios, paisagens e comunidades constituem sujeitos de existência. Essa concepção rompe com a lógica utilitarista da natureza e sustenta a noção de rio educador, reconhecendo o Rio Miringuava como parte constitutiva das relações sociais, culturais e pedagógicas. No campo da Educação Socioambiental e da Educação Ambiental, os aportes de Carvalho (2017), Sammarco (2005) reforçam a educação como prática transformadora ancorada nas vivências e nas experiências cotidianas. Segundo Sammarco (2005, p. 80) “a apropriação dos espaços por parte dos atores dentro de um processo de Educação Ambiental para as construções das mudanças necessárias, a investigações sobre as percepções destes espaços se faz imprescindível.”
As reflexões de Oliveira (2017), Marandola e Torres (2023) contribuem para o entendimento da paisagem como construção sensível, simbólica e existencial, mediada pelas percepções, afetos e memórias dos sujeitos. A geografia humanista amplia a leitura do espaço para além de sua dimensão material. As contribuições de Andreotti (2013) aprofundam o olhar para as paisagens naturais, as simbologias e os significados do espaço enquanto “lugar”. Freire (1996) fundamenta o caráter emancipatório da pesquisa, ao compreender a educação como prática dialógica, na qual as narrativas e o diálogo permitem a leitura do mundo e a produção coletiva do conhecimento.
Autoras como Gratão (2002) e Chiapetti (2009) evidenciam, em suas pesquisas, a estreita interação entre rio, paisagem, natureza e comunidades. O rio como espaço de produção de sentidos individuais e coletivos, contribui para a construção da identidade do lugar. Chiapetti (2009) destaca que o rio carrega memórias e saberes histórico-culturais, constituindo uma paisagem permeada por encantamentos, lendas e mitos, que fortalecem os vínculos simbólicos entre os sujeitos e o território. Gratão (2002), ao narrar poeticamente suas vivências junto ao rio Araguaia, evidencia como essa relação sensível e experiencial favorece os processos de sensibilização, conscientização e conservação ambiental. Assim, o referencial teórico articula epistemologias do sul, educação socioambiental, educação ambiental e abordagem narrativa, sustentando a compreensão do Rio Miringuava como rio educador na paisagem socioambiental.
METODOLOGIA
No percurso metodológico da pesquisa, o início das atividades de campo esteve condicionado à apreciação e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), etapa fundamental para assegurar o cumprimento dos princípios éticos que orientam investigações com seres humanos. A pesquisa envolveu entrevistas semiestruturadas, idas à campo, análise documental e observações, favorecendo uma leitura integrada das percepções sobre o rio. As entrevistas foram gravadas e transcritas manualmente para análise. Preservou-se o anonimato dos/as participantes. Para a comunidade escolar, adotou-se a estrutura de referência “professora + número” (ex.: Professora 1, Professora 2, Professora 3).
As escolas selecionadas para a pesquisa mantêm alguma relação com o Rio Miringuava, essa escolha ocorreu a partir da análise de mapas do município de São José dos Pinhais. Localizou-se o curso do rio nesses mapas, desde sua nascente no alto da Serra do Mar, até as proximidades das comunidades rurais e urbanas por onde ele percorre. Ao longo desse percurso situam-se a Escola Municipal São José, na Colônia Murici; a Escola Municipal Professora Júlia Wanderley, no bairro Barro Preto; a Escola Municipal Eugênia C. S. Talamini, no bairro São Marcos; e a Escola Municipal Ezaltina Camargo Meira, no bairro Jardim Carmem. Também participaram da pesquisa os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) João-de-Barro, localizado no bairro Barro Preto, no início da zona urbana e da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Miringuava, e Luiza Possebom Tozzo, situado no bairro São Marcos.
A análise dos dados foi conduzida de forma interpretativa, cuidadosa e sistemática, respeitando a natureza subjetiva das informações produzidas no contexto da pesquisa qualitativa. Conforme Minayo (2002), esse processo inicia-se com a organização e preparação do material empírico, seguida de leituras sucessivas, ordenação e categorização dos dados, visando à construção de núcleos de sentido. Os dados foram inicialmente transcritos e organizados, e posteriormente, procedeu-se à identificação de categorias analíticas emergentes. Com o intuito de ampliar a compreensão do campo investigado, adotou-se a triangulação de dados, integrando informações provenientes das entrevistas, das observações e da análise documental. Essa estratégia metodológica possibilitou o cruzamento de diferentes fontes, fortalecendo a consistência analítica e favorecendo uma leitura mais abrangente e contextualizada da realidade socioambiental investigada.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados e as discussões deste artigo foram fundamentados nas narrativas do grupo de professoras entrevistadas durante a pesquisa de campo. Observou-se, ao longo do estudo, o comprometimento dessas docentes em fornecer informações precisas e fidedignas, com o intuito de contribuir com dados que pudessem influenciar o destino do rio educador como uma importante ferramenta pedagógica para a Educação Ambiental. As narrativas analisadas partem de atrizes sociais engajadas, preocupadas com sua comunidade escolar e com os problemas socioambientais que afetam a região em que atuam. Nesse sentido, tais percepções dialogam com Carvalho (2005, p. 57), ao afirmar que “as vias de acesso dos educadores na Educação Ambiental conduzem seus ritos de entrada, remetendo aos caminhos de aproximação e à ultrapassagem de certa fronteira de conversão pessoal e reconversão profissional”.
O Rio Miringuava, inserido na paisagem socioambiental, revelou-se também um rio de memórias, despertando a atenção e o interesse das professoras entrevistadas. Nas narrativas, algumas professoras rememoraram com saudade experiências vividas na infância, marcadas pelo contato direto com o rio. Enquanto que outras relataram não conhecê-lo de forma concreta, apesar de atuarem em escolas localizadas em seu entorno. Esses contrastes evidenciam distintas formas de relação com o território e revelam processos de aproximação e distanciamento entre sujeitos e natureza. Conforme Oliveira (2017) a paisagem é construída a partir da experiência sensível e da vivência cotidiana, o que explica por que o rio se apresenta, para algumas professoras, como espaço de pertencimento e, para outras, como elemento ausente ou invisibilizado no cotidiano escolar.
Para tanto, a Professora 1 trouxe recordações de proximidade com o Rio Miringuava, ao rememorar experiências vividas na infância: “quando eu era criança, fui algumas vezes no rio, no caminho tinha poucas casas e íamos caminhando em uma carreira até chegar nas suas margens”. Essa narrativa evidencia um tempo em que o rio integrava o cotidiano e as práticas de convivência comunitária, marcado por uma paisagem menos urbanizada e por relações mais diretas com a natureza. As memórias evocadas pela Professora 1 revelam o rio como espaço de vivência, deslocamento e encontro, reforçando a compreensão da paisagem como espaço vivido, conforme discutem Oliveira (2017) e Sammarco (2005).
Nesse sentido, ao mesmo tempo, a comparação implícita entre o passado narrado e o presente sugere transformações na paisagem e no modo como o rio passou a ser percebido, indicando processos de distanciamento que impactam as relações socioambientais e as possibilidades educativas associadas ao rio. Segundo Andreotti (2013, p.34) “a paisagem é cultura, é estética, é história, é vicissitude, é cor, ocorre que aquela paisagem vem descrita não apenas sobre a base da mera observação geográfica, mas integralmente.”
As inquietações manifestadas pelas professoras suscitam reflexões sobre o papel do rio no cotidiano, evidenciando como sua presença, muitas vezes naturalizada ou invisibilizada, pode ser ressignificada a partir das experiências, memórias e práticas socioambientais, tanto na vida comunitária quanto no contexto escolar. A Professora 2 fala sobre “que existe esse rio, mas não o conheço direito, mas ele está envolvido com a comunidade escolar porque faz parte do território.” Essas inquietações dialogam com Freire (1996), ao evidenciar a necessidade de uma educação que parta da leitura do mundo vivido, reconhecendo o território como espaço formativo.
Nesse sentido, a Professora 3 destacou o desenvolvimento de um projeto pedagógico interdisciplinar envolvendo toda a escola, no qual o Rio Miringuava constituiu o eixo articulador das práticas educativas. O projeto levantou questões sobre a Barragem Miringuava e o destino do rio. A Professora 4 aponta que “ devido ao projeto vimos o impacto da barragem sobre a paisagem local. As mudanças são significativas e alteram o ecossistema do rio. “ Nesse sentido, as reflexões de Krenak (2023) e Nego Bispo (2023), compreendem o rio não apenas como recurso natural, mas como sujeito de relações, portador de memórias e saberes ancestrais, cuja existência está intrinsecamente vinculada às formas de vida que o cercam.
O projeto socioambiental, o qual descrevem as Professoras 3 e 4, dessa escola na zona rural da Colônia Murici em São José dos Pinhais, envolveram turmas do quinto ano do ensino fundamental. As professoras relatam que o projeto possibilitou a articulação de diferentes áreas do conhecimento em torno das questões socioambientais relacionadas ao território. No ano de 2023, a escola promoveu uma Mostra Pedagógica aberta à comunidade, na qual foram socializados os trabalhos desenvolvidos pelos estudantes. Além disso, a instituição foi convidada a participar de uma sessão na Câmara de Vereadores de São José dos Pinhais, ocasião em que apresentou os resultados do projeto, incluindo um vídeo gravado na área da barragem, ampliando o diálogo entre escola, comunidade e poder público.
Do mesmo modo, as reflexões das Professoras 3 e 4, aproximam-se das contribuições de Gratão (2002) e Chiapetti (2009), ao evidenciarem que os rios, enquanto paisagens vividas mobilizam memórias, afetos e narrativas capazes de sensibilizar os sujeitos para práticas de cuidado, responsabilidade e conservação socioambiental. No contexto, em especial dessa comunidade escolar, o projeto socioambiental emergiu a partir da iniciativa dessas professoras. Porém, o tema central do trabalho foi da construção da Barragem do Miringuava, tendo o Rio Miringuava um elemento da paisagem, presente no desenvolvimento das atividades interdisciplinares, mas não como objeto principal de estudo.
Em outra unidade de ensino pesquisada, localizada no bairro São Marcos, o CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil), as professoras relataram não desenvolver projetos pedagógicos voltados à abordagem do Rio Miringuava no contexto da Educação Ambiental. Embora a instituição esteja situada na região do rio, não se identificou, até o momento da pesquisa, interesse ou iniciativas direcionadas à conservação e à sensibilização ambiental relacionadas a esse território. Contudo, a fala da Professora 5 revela o reconhecimento da importância de trabalhar pedagogicamente com o rio desde a primeira infância, ao afirmar a necessidade de “ensinar para as crianças como deve ser o cuidado com o rio, o que é que tem no rio, os peixinhos, que ele precisa de limpeza. Não jogar lixo. Eu acho que desde pequenininho tem que ensinar sobre esses cuidados”. Essa narrativa evidencia a preocupação da docente em promover, junto a crianças pequenas, a construção de valores e atitudes voltados ao cuidado com o ambiente natural. Tal perspectiva dialoga com Krenak (2023, p. 33), ao afirmar que “todas as crianças que brincam na aldeia herdam uma visão de mundo integrada com a natureza” e que, ao estarem em sintonia com uma memória ancestral, desenvolvem relações mais equilibradas com o meio em que vivem.
As Professoras 6 e 7, apontam para a invisibilidade do Rio Miringuava tanto para as crianças do mesmo CMEI quanto para parte do corpo docente, considerando que muitas professoras são oriundas de outros municípios e, portanto, não possuem vínculos prévios com o território em que atuam. A fala da Professora 6 evidencia essa lacuna ao afirmar que “as crianças aqui, provavelmente nunca ouviram falar desse rio, muitas professoras também não, não têm conhecimento. Essa relação, do rio e do território, ela precisa ser construída”. De forma complementar, a Professora 7 aprofunda a reflexão ao caracterizar o Rio Miringuava como “um rio abandonado”, destacando a ausência de uma paisagem atrativa em suas margens e a inexistência de cuidados efetivos, reduzindo-o a um espaço associado ao descarte de lixo ou a práticas esporádicas de pesca. As narrativas revelam a preocupação das professoras em promover uma Educação Ambiental fundamentada em uma perspectiva socioambiental, na qual a percepção do ambiente esteja diretamente vinculada ao conhecimento e à valorização do entorno vivido. Essa compreensão dialoga com Sammarco (2005, p. 70), ao afirmar que “é através da percepção do ambiente que a imaginação acontece, e o ser humano estrutura sua representação cognitiva do ambiente”.
Quando questionadas sobre a possibilidade de o Rio Miringuava configurar-se como um rio educador, destacaram-se diferentes percepções entre as professoras entrevistadas. A Professora 8 afirmou acreditar que o rio pode contribuir para a formação das crianças ao abordar temas como o abastecimento de água e a importância das nascentes, possibilitando, a partir desses conteúdos, a compreensão do papel educativo do rio. Já a Professora 9 enfatizou a relevância da articulação com as disciplinas escolares, especialmente ao apontar que “nas aulas de Ciências, que envolvem muito a parte ambiental e a temática das águas, a conservação do meio ambiente é bastante trabalhada, o que contribuiria significativamente para os cuidados com o rio como educador”.
Nesse mesmo sentido, a Professora 10 expressou preocupações relacionadas à construção da barragem e às transformações socioambientais decorrentes desse processo, ao destacar que “a partir do momento que a barragem estiver pronta e iniciar o alagamento, os animais e a natureza, muitos serão extintos. As pessoas não têm informações do que está acontecendo. O rio como educador poderia alertar e informar através da escola e das disciplinas”. As narrativas evidenciam a compreensão de que o rio educador seja capaz de integrar conteúdos curriculares. Desse modo, promover a educação ambiental e estimular o pensamento crítico frente aos impactos socioambientais locais. Para Floriani (2021) embora os debates sobre a crise socioambiental mundial estejam presentes nos discursos políticos e acadêmicos, a sociedade ainda se limita a concepções vagas. Segundo Floriani (2021), a crise socioambiental contemporânea exige formas ampliadas de pensar a Educação Socioambiental, associadas a ações concretas que reconheçam a natureza como finita.
Portanto, o reconhecimento do Rio Miringuava como um rio educador pelas escolas participantes da pesquisa evidenciou-o como um elemento formativo e constitutivo do território vivido. Observou-se, ainda, um expressivo interesse no desenvolvimento de projetos pedagógicos e de ações socioambientais voltadas ao fortalecimento do papel educativo do rio, tanto no âmbito escolar quanto no comunitário. As narrativas das participantes indicaram a compreensão de que o Rio Miringuava integra a vida da comunidade, configurando-se como espaço de aprendizagem, de memória e de pertencimento. Ao mesmo tempo, as professoras ressaltaram a necessidade de maior atuação do poder público no que se refere às ações de conservação, gestão e cuidado com o rio, apontando para a corresponsabilidade entre escola, comunidade e gestão pública na promoção de uma Educação Ambiental comprometida com o território.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As reflexões desenvolvidas neste artigo evidenciam o potencial do Rio Miringuava como rio educador, compreendido não apenas como elemento natural da paisagem, mas como sujeito de relações, portador de memórias, saberes e experiências que atravessam o território. A partir das narrativas das professoras e de participantes da comunidade do entorno, foi possível identificar diferentes formas de percepção e vínculo com o rio, revelando tanto aproximações afetivas quanto processos de distanciamento, decorrentes das transformações socioambientais e das intervenções humanas ao longo do tempo.
Os resultados indicam que o Rio Miringuava desperta interesse e mobiliza reflexões no contexto escolar, evidenciando seu potencial pedagógico para o desenvolvimento de práticas de educação socioambiental críticas, interdisciplinares e contextualizadas. As experiências relatadas pelas professoras demonstram que o rio pode constituir-se como eixo integrador do currículo, favorecendo a articulação entre escola, território e comunidade. Ao mesmo tempo, as narrativas apontam a necessidade de superar a invisibilização do rio no cotidiano escolar, ressignificando-o como espaço formativo e de aprendizagem.
Por fim, o estudo reforça a efetivação de práticas educativas e socioambientais voltadas ao rio educador requer a articulação entre escola, comunidade e poder público, de modo a garantir ações contínuas de cuidado, conservação e valorização do território. Como limites da pesquisa, destaca-se o recorte específico das instituições participantes, o que abre possibilidades para investigações futuras que ampliem o diálogo com outros atores sociais e territórios. Espera-se que este trabalho contribua para o fortalecimento da educação socioambiental e para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com a vida, o pertencimento e a sustentabilidade dos territórios.
REFERÊNCIAS
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[1] Mestra em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (PPGMADE). Pedagoga pela Universidade Castelo Branco/Rio de Janeiro. Pós- Graduada em Educação Especial e Educação Inclusiva; Educação Ambiental e Sustentabilidade; Metodologia do Ensino de Geografia pela Uninter. Professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental na Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais e na Prefeitura Municipal de Curitiba. crismeri207@gmail.com
[2] Doutora em Educação Ambiental pela Universidade Autônoma de Madrid, Espanha e pela ESALQ/USP., Mestra em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é Docente na Universidade Federal do Paraná e possui projetos de pesquisa e extensão na área de Percepção e Educação Ambiental, Cultura e Territórios Socioambientais, Ambientalização Escolar e Universitária. Parte do corpo docente da Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMADE). yanina@ufpr.br
